Publicado em: 02/10/2026

publicado por:

Raquel Esteves

O que é uma burla de recuperação?

Perdeste dinheiro numa burla e, pouco depois, alguém te contacta a garantir que o consegue recuperar. Só há um pormenor: primeiro tens de pagar uma taxa. É assim que começa a burla de recuperação, e é assim que muitas pessoas acabam a pedir um crédito para pagar a quem as enganou.

Neste artigo explicamos como funciona o esquema da burla de recuperação, como o reconhecer e porque um crédito nunca é a saída.

Pessoa segura um smartphone preto em primeiro plano com uma mão no rosto ao fundo, num gesto de desespero ou frustração.

Burla de recuperação: o que é, como reconhecer e o que fazer

Chama-se burla de recuperação porque o isco é precisamente a recuperação: o burlão oferece-se para ir buscar o dinheiro que já perdeste, cobra à cabeça e fica também com esse valor. Em inglês, é conhecida como recovery scam.

Antes de continuares, guarda esta ideia: se tens de pagar para receber o teu próprio dinheiro de volta, é burla. Não importa se quem te contacta diz ser do banco, de um regulador ou de um escritório de advogados.

Um caso típico, passo a passo

Imagina a Sofia (exemplo ilustrativo). Em março investiu 8.000 € numa plataforma que prometia lucros rápidos com criptomoedas. Quando tentou levantar o dinheiro, a plataforma desapareceu.

Três semanas depois, recebe uma mensagem no WhatsApp de um suposto escritório de advogados. Sabem o nome da plataforma e o valor exato que ela perdeu. Dizem que o dinheiro foi “localizado” numa conta no estrangeiro e que o trazem de volta em 30 dias.

Para abrir o processo, pedem 450 € de honorários. A Sofia paga. Uma semana depois, surge um “imposto de repatriamento” de 1.200 €. Ela já não tem esse dinheiro e, por sugestão do próprio “advogado”, pede um crédito pessoal. A seguir chega uma “taxa de custódia”. Depois, o contacto deixa de responder.

No fim, a Sofia perdeu os 8.000 €, mais 1.650 € em taxas, e ficou com uma prestação para pagar durante anos.

Os nomes e os valores mudam, mas o mecanismo é sempre este: uma perda, um contacto inesperado de alguém que sabe demasiado, uma promessa de devolução e uma sucessão de pagamentos que nunca acaba. Muitas vezes, os dados usados no segundo contacto vêm dos mesmos burlões da primeira fraude.

Cinco perguntas a fazer antes de pagares seja o que for

Se alguém te promete recuperar dinheiro, responde com honestidade a estas perguntas. Um único “sim” chega para parar tudo.

  • Tenho de pagar alguma coisa antes de receber? Honorários, impostos, custas ou comissões de levantamento: o nome não interessa, o pedido é o sinal.
  • Fui eu que procurei esta pessoa? Se o contacto veio do nada e já sabiam quanto perdeste, desconfia.
  • Estão a garantir-me o resultado ou a pôr-me pressa? Ninguém pode garantir que recuperas dinheiro desviado, e prazos de “hoje ou nunca” servem para não pensares.
  • Pedem-me um meio de pagamento estranho ou acesso ao meu computador? Criptomoedas, cartões pré-pagos, contas estrangeiras, programas de acesso remoto ou códigos do banco são alarmes sérios.
  • Pedem-me segredo ou sugerem que peça um crédito? Quem te afasta do banco e da família, ou te indica onde pedir dinheiro, não está do teu lado.

Documentos com logótipos do Banco de Portugal, da CMVM ou de um tribunal não provam nada, porque são fáceis de falsificar. Na dúvida, contacta tu a entidade pelos contactos do site oficial, nunca pelos que te enviaram.

Porque um crédito de recuperação nunca é a solução

Pedir um crédito para pagar uma “taxa de recuperação” transforma uma perda numa dívida. O dinheiro vai para os burlões e a prestação fica contigo durante anos.

Pensa no exemplo acima. Se pedires 750 € a crédito, não recuperas os 15.000 €: ficas sem eles e ainda com uma nova prestação. E como o burlão volta quase sempre com um novo custo, é fácil acumular vários créditos em poucas semanas. É o início de um ciclo de dívidas difícil de travar.

Há também uma variante menos óbvia: pedir uma consolidação de créditos com reforço de liquidez, sem dizer para que é o dinheiro extra. A consolidação serve para reorganizar dívidas reais e baixar o esforço mensal. Usada para pagar uma burla, só aumenta o que deves e o prazo durante o qual vais pagar.

Quando o pedido nos chega a nós

Enquanto intermediário de crédito, já nos chegaram pedidos em que o dinheiro se destinava, afinal, a pagar estas taxas. Houve até quem nos dissesse que tinha sido o “advogado” ou a “empresa de recuperação” a indicar onde pedir o crédito.

Quando algo no pedido não bate certo, não o enviamos logo ao banco. Primeiro falamos contigo, com calma e sem julgamentos, para perceber para que é realmente o dinheiro. Se houver sinais de burla, explicamos porquê, aconselhamos-te a apresentar queixa e, quando se justifica, comunicamos o caso ao Banco de Portugal. Tudo fica registado.

Fica também o aviso: nunca te vamos pedir um pagamento para recuperar dinheiro de uma burla. Se alguém o fizer em nosso nome, fala connosco pelos contactos oficiais do site.

Se já pagaste: as primeiras horas contam

Se ainda não pagaste nada, a resposta é simples: não pagues, deixa de responder e não cliques em links nem instales programas que te enviem.

Se já pagaste, o tempo é o que mais pesa.

Hoje, de preferência na próxima hora

  • Liga para o teu banco, conta o que aconteceu e pede para tentar travar a transferência.
  • Bloqueia cartões e muda as palavras-passe e os acessos que possas ter partilhado.

Nos dias seguintes

  • Apresenta queixa na PSP, GNR ou PJ, presencialmente ou no portal de Queixa Eletrónica do MAI. Mesmo que já tenhas feito queixa da primeira burla, faz outra: é um crime novo.
  • Leva tudo o que tiveres: comprovativos, conversas, números de telefone, emails e nomes usados.
  • Se usaram o nome do Banco de Portugal ou da CMVM, ou se tudo começou numa plataforma de investimento falsa, avisa também essas entidades.

Se a burla te deixou com dívidas difíceis de pagar, não decidas sob pressão. Fala primeiro com alguém de confiança e faz um levantamento honesto do que deves. A partir daí, há caminhos legítimos, desde renegociar com o banco até procurar apoio em situações de sobre-endividamento.

Os reguladores dizem o mesmo

Não é só um conselho nosso. A CMVM tem alertado, em 2025 e novamente em setembro de 2026, para burlões que se oferecem para recuperar investimentos perdidos e para pedidos de comissões, seguros ou impostos. Lembra também que não contacta ninguém por WhatsApp. O Banco de Portugal fez avisos semelhantes sobre criptoativos, incluindo falsas promessas de recuperar ou reativar carteiras mediante pagamento.

Perguntas frequentes sobre burla de recuperação

Porque é que os burlões sabem tanto sobre a primeira burla?

Porque numa burla de recuperação muitas vezes são os mesmos, ou compraram os dados a quem te enganou. Saberem pormenores não prova que sejam legítimos.

Um advogado pode ajudar-me a recuperar o dinheiro?

Pode, se fores tu a escolhê-lo. Confirma que está inscrito na Ordem dos Advogados, pede um contrato escrito e desconfia de quem te aborda primeiro a prometer resultados.

Se o banco conseguiu bloquear a transferência, tenho de pagar alguma coisa?

Não. O banco não cobra para devolver dinheiro retido por suspeita de fraude. Confirma sempre ligando para o número oficial.

Posso usar uma consolidação de créditos para cobrir o que perdi?

A consolidação serve para reorganizar dívidas reais e baixar a prestação mensal. Não é uma forma de pagar taxas a terceiros, e usar o reforço de liquidez para isso só agrava a situação.

E se já pedi um crédito para pagar a um burlão?

Apresenta queixa e fala o quanto antes com a entidade que te concedeu o crédito. Depois, avalia com calma a tua situação global antes de assumires novos compromissos.

Vale a pena fazer queixa se o dinheiro já não volta?

Sim. A queixa ajuda a investigação, pode ligar o teu caso a outros e fica registada caso o banco ou outras entidades precisem de a analisar.

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