Consultar o mapa de responsabilidades de crédito é o primeiro passo. Saber lê-lo é o segundo. O documento tem uma estrutura específica com campos que nem sempre são intuitivos à primeira vista. Este guia explica o que significa cada secção, como interpretar os estados de cada crédito e o que um banco ou intermediário de crédito analisa quando recebe o teu mapa.
A estrutura geral do mapa de responsabilidades
O mapa de responsabilidades de crédito emitido pela Central de Responsabilidades de Crédito (CRC) do Banco de Portugal está organizado em secções que correspondem aos diferentes tipos de crédito e situações registadas.
O documento começa com a identificação do titular (nome e número de identificação fiscal) e a data de referência do mapa. A data de referência é importante: o mapa é uma fotografia do teu historial de crédito num determinado momento e pode não refletir pagamentos muito recentes que ainda não foram reportados à CRC.
A seguir, o mapa apresenta os créditos organizados por situação: créditos em vigor, créditos com incumprimento, créditos reestruturados e créditos encerrados. Dentro de cada secção, os créditos são listados por instituição financeira.
Os campos principais de cada crédito
Tipo de crédito
O primeiro campo identifica o tipo de crédito: habitação, pessoal, automóvel, cartão de crédito, conta corrente, consolidação ou outro. Esta classificação é relevante para perceber a composição do teu endividamento e para identificar quais os créditos que podem ser incluídos numa consolidação.
Instituição financeira
Identifica o banco ou instituição que concedeu o crédito. Quando tens créditos em várias instituições, o mapa mostra-os todos, independentemente de qual banco estás a consultar. Esta visão transversal é precisamente o que torna o mapa útil: nenhum banco vê apenas os seus próprios créditos.
Montante do crédito e montante em dívida
O montante do crédito é o valor original aprovado. O montante em dívida é o que ainda falta pagar no momento da data de referência do mapa. Para efeitos de consolidação, o montante em dívida é o valor relevante: é o que vai ser liquidado e incluído no novo contrato.
A diferença entre os dois valores mostra quanto já amortizaste. Em créditos recentes, a diferença é pequena; em créditos com vários anos de pagamentos, a diferença pode ser significativa.
Prestação mensal
A prestação mensal indicada no mapa corresponde ao valor que estás a pagar atualmente. A soma das prestações de todos os créditos ativos é o ponto de partida para calcular a tua taxa de esforço atual e perceber quanto a consolidação pode reduzir o valor total pago por mês.
Prazo
O prazo indica a duração total do contrato e, em alguns casos, o prazo restante. Para créditos com prazo longo restante, a consolidação pode fazer mais sentido do que para créditos próximos do fim do prazo, onde o custo de consolidar pode superar o benefício da redução de prestação.
Estado do crédito
Este é o campo mais importante do mapa e o que os bancos analisam com mais atenção. Os estados possíveis são:
Regular: o crédito está a ser pago normalmente, sem atrasos. É o estado que todos os créditos devem ter e que não prejudica o acesso a novo crédito ou consolidação.
Com incumprimento: existe pelo menos uma prestação em atraso. Este estado é o que as pessoas designam popularmente como “ter o nome no Banco de Portugal“. A presença de incumprimentos ativos é o principal fator que dificulta ou impede a aprovação de uma consolidação na maioria das instituições.
Reestruturado: as condições originais do crédito foram alteradas por acordo com o banco, habitualmente no âmbito do PERSI. Indica que houve dificuldades mas que foram resolvidas de forma negociada. O impacto no acesso a crédito é menor do que o incumprimento ativo mas continua a ser visível para os bancos.
Encerrado: o crédito foi totalmente pago e o contrato encerrado. Os créditos encerrados continuam visíveis no mapa durante um período após o encerramento mas não têm impacto negativo no acesso a novo crédito.
Abatido ao ativo: o crédito foi contabilisticamente abatido pela instituição, habitualmente quando considera a recuperação improvável. É o estado mais grave e o que mais limita o acesso a qualquer tipo de crédito futuro.
Datas no mapa de responsabilidades
As datas são um dos campos que mais confusão gera na leitura do mapa. As principais são:
- Data de início: quando o contrato foi celebrado.
- Data de vencimento: quando o contrato termina previsivelmente se os pagamentos forem feitos normalmente.
- Data do último movimento: a data do último reporte feito pela instituição à CRC. Como o reporte é mensal, pode haver um desfasamento de algumas semanas entre um pagamento recente e a sua atualização no mapa.
- Data de referência do mapa: a data a que se refere o documento. Os dados refletem a situação no final do mês da data de referência.
Como os bancos leem o teu mapa na análise de consolidação
Quando uma instituição financeira ou um intermediário de crédito recebe o teu mapa de responsabilidades para analisar um pedido de consolidação, foca-se em três coisas principais:
Taxa de esforço atual
Soma todas as prestações dos créditos em vigor e divide pelo teu rendimento líquido mensal. Este número é a tua taxa de esforço atual. O Banco de Portugal recomenda que não ultrapasse 35% a 40% e impõe um limite legal de 50%. Na análise de consolidação, o banco vai calcular se a nova prestação consolidada resulta numa taxa de esforço dentro dos limites.
Existência de incidentes
A presença de incumprimentos ativos é analisada de forma binária: existem ou não existem. Na maioria das instituições, incumprimentos ativos resultam em recusa automática, especialmente na modalidade sem hipoteca. Na modalidade com hipoteca, algumas instituições aceitam pedidos com incidentes ativos dependendo do montante e do valor do imóvel.
Se tens incidentes ativos no teu mapa, é importante compreender o seu impacto específico antes de avançar com um pedido de consolidação.
Montante total em dívida
A soma dos montantes em dívida de todos os créditos a consolidar determina o montante mínimo necessário para a consolidação. O banco vai avaliar se o montante total está dentro dos limites que está disposto a aprovar para o teu perfil e, no caso da consolidação com hipoteca, se o imóvel tem valor suficiente para garantir esse montante.
O que fazer com a informação do mapa antes de pedir a consolidação
Depois de leres o mapa, há três ações concretas que tornam o processo de consolidação mais eficiente:
Verifica erros. Confirma que todos os créditos listados são reais e que os montantes e estados estão corretos. Qualquer erro deve ser corrigido antes de avançares com o pedido de consolidação.
Lista os créditos a consolidar. Decide quais os créditos que queres incluir na consolidação. Não és obrigado a incluir todos. Em alguns casos, pode fazer sentido excluir um crédito próximo do fim do prazo ou com condições já muito favoráveis.
Calcula o montante total. Soma os montantes em dívida dos créditos que queres consolidar. Este é o valor de referência para as simulações que vais receber das instituições ou do intermediário de crédito.
Conclusão
Ler o mapa de responsabilidades de crédito não é difícil quando sabes o que procurar. O estado de cada crédito é o campo mais importante: define se a consolidação é acessível e em que condições. A soma das prestações define a taxa de esforço atual e o potencial de redução da consolidação. A soma dos montantes em dívida define o valor a consolidar. Com estes três números em mão, tens toda a informação necessária para uma simulação de consolidação realista e para perceber o que esperar do processo de aprovação.
Perguntas frequentes sobre a leitura do mapa de responsabilidades
O que significa o estado “regular” no mapa de responsabilidades?
O estado “regular” indica que o crédito está a ser pago normalmente, sem atrasos ou incidentes. É o estado neutro que todos os créditos devem ter e que não prejudica o acesso a novo crédito ou a uma consolidação. A maioria dos créditos ativos de quem paga em dia aparece com este estado no mapa.
O que significa “com incumprimento” no mapa de responsabilidades?
O estado “com incumprimento” indica que existe pelo menos uma prestação em atraso naquele crédito. É o estado que as pessoas designam popularmente como “ter o nome no Banco de Portugal“. A presença de incumprimentos ativos é o principal fator que dificulta ou impede a aprovação de uma consolidação na maioria das instituições financeiras.
Os créditos encerrados aparecem no mapa de responsabilidades?
Sim. Os créditos totalmente pagos e encerrados continuam visíveis no mapa de responsabilidades durante um período após o encerramento, definido legalmente. No entanto, créditos encerrados com histórico regular não têm impacto negativo no acesso a novo crédito. Pelo contrário, um historial de créditos encerrados normalmente é um indicador positivo de comportamento financeiro responsável. Podes saber mais sobre quanto tempo duram os registos no mapa.
Qual a diferença entre montante do crédito e montante em dívida no mapa?
O montante do crédito é o valor original aprovado quando o contrato foi celebrado. O montante em dívida é o que ainda falta pagar na data de referência do mapa. Para efeitos de consolidação, o montante em dívida é o valor relevante porque é o que vai ser liquidado e incluído no novo contrato de consolidação.
Porque é que o mapa pode não refletir um pagamento recente?
O mapa de responsabilidades é atualizado mensalmente com base nos reportes que as instituições financeiras fazem à CRC do Banco de Portugal. Pode existir um desfasamento de algumas semanas entre um pagamento recente e a sua atualização no mapa. Se fizeste um pagamento recente que ainda não aparece no mapa, a data do último movimento e a data de referência do mapa ajudam a perceber se o desfasamento é normal.
O banco vê o mesmo mapa que eu?
Sim, essencialmente. As instituições financeiras têm acesso à CRC do Banco de Portugal e consultam a mesma informação que consta no teu mapa de responsabilidades quando analisam um pedido de crédito ou consolidação. A diferença é que as instituições podem ter acesso a informação mais detalhada ou a dados históricos adicionais consoante os acordos com o Banco de Portugal.