Perceber como funciona a amortização é perceber para onde vai o teu dinheiro em cada prestação. Não é um conceito abstracto: é a diferença entre pagar mais juros ou mais capital, entre escolher um prazo mais curto ou mais longo, e entre saber quando compensa amortizar antecipadamente ou manter o dinheiro aplicado.
O que é a amortização de crédito
Quando pedes um crédito, a instituição financeira empresta-te um montante (o capital) que tu te comprometes a devolver ao longo de um período definido (o prazo), acrescido de juros. A amortização é o processo de devolução gradual desse capital.
Em cada prestação mensal que pagas, uma parte destina-se à amortização do capital em dívida e outra parte destina-se ao pagamento de juros. A soma destas duas componentes é a tua prestação mensal.
O que muda ao longo do tempo é a proporção entre as duas. No início do crédito, quando o capital em dívida é alto, a componente de juros é grande e a componente de amortização é pequena. À medida que vais pagando e o capital diminui, a componente de juros reduz e a componente de amortização cresce.
Como funciona o plano de amortização
O plano de amortização é a tabela que detalha, prestação a prestação, como se decompõe o pagamento ao longo de todo o prazo do crédito. Para cada prestação, o plano mostra:
- O número da prestação
- O valor total da prestação
- A componente de juros
- A componente de amortização de capital
- O capital em dívida restante após o pagamento
Esta tabela é fornecida pela instituição financeira no momento da contratação e faz parte da documentação que acompanha o contrato. Nos créditos hipotecários (habitação e consolidação com hipoteca), esta informação consta na FINE. Nos créditos ao consumo (pessoal e consolidação sem hipoteca), consta na FIN.
Sistema francês vs sistema alemão
Em Portugal, a esmagadora maioria dos créditos utiliza o sistema francês. Mas é útil perceber a diferença entre os dois sistemas para interpretar correctamente o plano de amortização.
Sistema francês (prestação constante)
No sistema francês, a prestação mensal mantém-se igual durante todo o prazo (nos créditos a taxa fixa) ou durante o período entre revisões da Euribor (nos créditos a taxa variável).
O que muda é a composição interna: no início, a maior parte da prestação vai para juros e uma parte pequena vai para capital. Nos últimos anos, a situação inverte-se: a maior parte vai para capital e uma parte pequena para juros.
Exemplo prático (sistema francês):
Crédito de 100.000€ a 30 anos, taxa fixa de 3,5%.
| Prestação |
Valor |
Juros |
Capital |
Capital restante |
| 1ª (mês 1) |
449€ |
292€ |
157€ |
99.843€ |
| 180ª (ano 15) |
449€ |
194€ |
255€ |
66.175€ |
| 360ª (último mês) |
449€ |
1€ |
448€ |
0€ |
Repara que a prestação é sempre 449€ mas no primeiro mês pagas 292€ de juros e apenas 157€ de capital. No último mês, pagas apenas 1€ de juros e 448€ de capital.
Sistema alemão (amortização constante)
No sistema alemão, a amortização de capital é igual em todas as prestações. Como os juros são calculados sobre o capital em dívida (que vai diminuindo), a prestação total vai descendo ao longo do tempo.
Exemplo prático (sistema alemão):
Mesmo crédito de 100.000€ a 30 anos, taxa fixa de 3,5%.
| Prestação |
Valor |
Juros |
Capital |
Capital restante |
| 1ª (mês 1) |
569€ |
292€ |
278€ |
99.722€ |
| 180ª (ano 15) |
430€ |
153€ |
278€ |
52.222€ |
| 360ª (último mês) |
279€ |
1€ |
278€ |
0€ |
No sistema alemão, a amortização de capital é sempre 278€ mas a prestação total começa em 569€ e vai descendo até 279€.
Qual é melhor?
O sistema francês tem a vantagem da previsibilidade: a prestação é sempre igual, o que facilita o planeamento do orçamento. O sistema alemão permite pagar menos juros no total porque o capital é amortizado mais rapidamente no início. Mas a prestação inicial é mais alta, o que pode dificultar a aprovação quando a taxa de esforço está próxima do limite.
Na prática, quase todos os créditos em Portugal usam o sistema francês. Se quiseres o efeito do sistema alemão (amortizar capital mais rapidamente), podes fazê-lo através de amortizações antecipadas parciais ao longo do prazo.
A amortização nos créditos a taxa variável
Nos créditos indexados à Euribor, a prestação é recalculada periodicamente (a cada 3, 6 ou 12 meses) em função da nova taxa de referência. Quando a Euribor sobe, a prestação sobe; quando desce, a prestação desce.
O que muitos consumidores não percebem é que a variação da Euribor afecta principalmente a componente de juros e, consequentemente, o ritmo de amortização do capital. Quando a Euribor sobe e a prestação aumenta, uma parte maior vai para juros e o capital é amortizado mais lentamente. Quando a Euribor desce, acontece o inverso.
Isto significa que, em períodos de Euribor alta, o crédito “anda mais devagar” em termos de amortização do capital. É por isso que a escolha entre taxa fixa ou variável tem impacto directo não apenas na prestação mensal mas também na velocidade a que reduces a dívida.
Amortização antecipada: o teu direito legal
Tens o direito legal de amortizar antecipadamente qualquer crédito, parcial ou totalmente, a qualquer momento durante o prazo do contrato. Este direito é um dos direitos do consumidor no crédito mais importantes e está garantido por lei.
Penalizações máximas legais
| Tipo de crédito |
Taxa variável |
Taxa fixa |
| Crédito ao consumo (pessoal, automóvel, consolidação sem hipoteca) |
0,5% |
2% |
| Crédito hipotecário (habitação, consolidação com hipoteca) |
0,5% |
2% |
O banco não pode cobrar penalizações superiores a estes valores. Se cobrar, tens fundamento para reclamar junto do Banco de Portugal.
Quando compensa amortizar antecipadamente
A amortização antecipada compensa mais nas seguintes situações:
No início do crédito. Quando o capital em dívida é alto, cada euro amortizado antecipadamente poupa muitos euros de juros ao longo do prazo restante. Amortizar 10.000€ no segundo ano de um crédito a 30 anos poupa muito mais do que amortizar os mesmos 10.000€ no vigésimo ano.
Em créditos com taxa de juro elevada. A poupança é proporcional à taxa de juro. Amortizar um crédito pessoal a 12% gera muito mais poupança do que amortizar um crédito habitação a 3%.
Quando tens poupanças que rendem menos do que o crédito custa. Se tens 10.000€ num depósito a render 2% e um crédito pessoal a custar 10%, amortizar o crédito é matematicamente equivalente a um investimento com 10% de retorno garantido (menos a penalização).
Quando pode não compensar
Quando a taxa de juro é muito baixa. Se tens um crédito habitação a 1,5% e podes investir a 4% com risco controlado, pode fazer mais sentido manter o crédito e investir a diferença.
Quando a penalização é alta. Em créditos a taxa fixa, a penalização de 2% pode anular parte da poupança, especialmente se o prazo restante for curto.
Quando ficas sem fundo de emergência. Nunca uses todas as tuas poupanças para amortizar crédito. Mantém sempre um fundo de emergência equivalente a 3 a 6 meses de despesas antes de amortizar.
Amortização e consolidação de créditos
A amortização e a consolidação de créditos são ferramentas complementares para gerir o endividamento.
Quando consolidas vários créditos num único, o novo plano de amortização substitui todos os anteriores. A prestação total é mais baixa porque o prazo é mais longo, mas o ritmo de amortização do capital é também mais lento. É por isso que o MTIC (custo total do crédito) da consolidação pode ser superior ao custo total dos créditos originais, mesmo com prestação mensal mais baixa.
A estratégia mais eficiente combina as duas: consolidar para reduzir a prestação e ganhar margem no orçamento, e depois usar parte dessa margem para fazer amortizações antecipadas parciais ao longo do prazo. Desta forma beneficias da prestação mais baixa no dia a dia e reduces o custo total do crédito ao longo do tempo.
Para perceber se esta estratégia faz sentido no teu caso, consulta o teu mapa de responsabilidades, calcula a tua taxa de esforço e fala com um intermediário de crédito que possa simular diferentes cenários.
Como ler o plano de amortização do teu contrato
Se já tens um crédito activo, podes pedir o plano de amortização actualizado à tua instituição financeira. Ao lê-lo, presta atenção a:
A proporção juros vs capital. Na prestação actual, quanto vai para juros e quanto vai para capital? Se estás no início do crédito e a maior parte vai para juros, é normal.
O capital restante. Compara com o montante original para perceber quanto já amortizaste. Este valor é o que aparece no teu mapa de responsabilidades como “montante em dívida”.
O impacto de uma amortização antecipada. Se amortizares 5.000€ ou 10.000€ hoje, quanto desce a prestação ou quanto encurta o prazo? Pede à instituição uma simulação com e sem amortização para comparar.
O essencial sobre amortização de crédito
A amortização é o mecanismo pelo qual devolvemos gradualmente o capital emprestado. No sistema francês, que é o mais usado em Portugal, a prestação é constante mas a composição varia: no início paga-se mais juros, no final paga-se mais capital. Ter consciência desta dinâmica ajuda a tomar melhores decisões: desde escolher o prazo certo, a perceber quando compensa amortizar antecipadamente, até saber se a consolidação é vantajosa quando se olha para o custo total e não apenas para a prestação mensal. O plano de amortização é a ferramenta que torna tudo isto visível, e tens o direito de o pedir e de o perceber antes de tomar qualquer decisão.
Perguntas frequentes sobre amortização de crédito
O que é a amortização de crédito?
É o pagamento gradual do capital em dívida de um crédito. Cada prestação mensal inclui uma componente de amortização de capital e uma componente de juros. À medida que o capital em dívida diminui, a componente de juros reduz e a componente de amortização cresce.
O que é o sistema francês de amortização?
É o sistema mais usado em Portugal. A prestação mensal é constante (nos créditos a taxa fixa) mas a composição varia: no início, a maior parte vai para juros e uma parte pequena para capital. Nos últimos anos, inverte-se. É o sistema usado na maioria dos créditos habitação, pessoais e de consolidação.
Posso amortizar antecipadamente qualquer crédito?
Sim. É um direito do consumidor garantido por lei. Podes amortizar parcial ou totalmente a qualquer momento. As penalizações máximas são 0,5% para taxa variável e 2% para taxa fixa. O banco não pode cobrar valores superiores.
Quando compensa amortizar antecipadamente?
Compensa mais no início do crédito (quando o capital em dívida é alto), em créditos com taxa de juro elevada e quando as tuas poupanças rendem menos do que o crédito custa. Não compensa se ficares sem fundo de emergência ou se a penalização anular a poupança.
A consolidação altera o plano de amortização?
Sim. Quando consolidas vários créditos, os planos de amortização anteriores são substituídos por um único novo plano. A prestação total é mais baixa mas o prazo é habitualmente mais longo, o que significa que o ritmo de amortização do capital é mais lento. Compara sempre o MTIC (custo total) antes de decidir.
Como posso ver o meu plano de amortização actual?
Podes pedi-lo à tua instituição financeira a qualquer momento. Nos créditos hipotecários, esta informação consta na FINE. Nos créditos ao consumo, consta na FIN. O capital restante é o valor que aparece no teu mapa de responsabilidades como montante em dívida.